“É muito fácil entrar nas residências”

(Texto psicografado por Walace F. Neves, em 10-05-2021 – durante as comemorações dos 39 anos da Comunidade Espírita Esperança).

Haviam-se passados mais de trinta anos quando me dei conta de uma realidade capaz de despertar a mais dura rocha dos sentimentos humanos.

Sempre dominei o bairro com meus acólitos, quatro vingadores e oportunistas, desordeiros e perseguidores.

É muito fácil entrar nas residências e estimular a malquerença entre seus habitantes, principalmente quando comparsas e convivas do passado, ocultos pelo véu do esquecimento. Isso era bom e prazeroso. Tudo ia muito bem ao sabor dos meus caprichos quando me irritei profundamente.

Há, precisamente trinta e nove anos surgiu, no bairro, uma Casa que, pretensiosamente, pensava eu, se intitulava de Es…pe…rança… Uma afronta aos meus domínios. Já não me importava mais o bairro uma vez que eu sabia, sim que aquela edificação interferiria, bastante no ambiente.

Pseudos-santos, considerei os que passei a vigiar e, a acompanhar, diuturnamente, e desvendar os pontos nevrálgicos dos trabalhadores do Cordeiro.

Não foi difícil estimular as discussões farisaicas em torno dos chamados pontos de vistas pessoais, apegados às letras e aos rigores estatutários para fazerem valer suas imposições, provocar a vaidade de alguns que ocupavam postos que consideravam relevantes, afligir médiuns e palestrantes em seus conflitos íntimos.

Jamais quis entrar naquele ambiente, pois no meu autojulgamento, não era necessário, bastava esperar do lado de fora, aquém da invisível barreira pois, na verdade, sabia que o campo defensivo me impediria a mim a aos meus comandados.

A cegueira espiritual levava-me a agir, ardilosamente, articulando meus asseclas, ajustando-os por similaridade psicológica àqueles encarnados aos quais desejava assediar.

Quantos tentaram se aproximar de mim para uma tentativa de resgate para os quais mantinha-me refratário.

Certo dia um fato me chamou a atenção: um cooperador da Casa muito simples e dedicado, praticamente anônimo, pois não ocupava qualquer destaque e, não havia como assediá-lo e, não compreendia o porquê.

Certo dia soube havia deixado a vida física e, apesar de tudo, era profundamente estimado e, tempos depois fiquei sabendo que ele continuava como dedicado trabalhador a atender a tantas almas em sofrimento.

Do lado de fora eu aguardava um casal quem se digladiava em enorme desavença e eu já colocava, em prática, excelente plano para desfecho infeliz. Quando o casal surgiu, à saída, me espantei por vê-los em certa harmonia e, o mais sério, os acompanhava o aquele velho servidor desencarnado. Ele sorria. Tentei assediar o casal, mas não logrei êxito.

Ele parou à minha frente sem aspecto de afronta, mas com olhar inquiridor, sorriu e me disse que eu era seu convidado para, sem compromissos, visitar a Casa e, depois eu seguiria meu caminho e, que eu não tinha nada a perder.

Acostumado a sondar e sentir a intimidade das pessoas vi sinceridade, porém aquela sinceridade me cativou. Já que nada me exigia e, com sentido de certa ironia aceitei e entrei com meus quatro fiéis acompanhantes, uma vez que nenhuma barreira impedia nossa entrada.

Era um sábado, de manhã.

– Posso saber porque você se dispõe à conduta que tomou, na vida?

– Vocês que se ordenam em cuidar do rebanho a lhes oferecer salvação, a serviço do Cordeiro, não sabem que alguém tem a missão de cuidar e punir os maus e perversos que se debatem desde tantas outras vidas nesse mister? Como vocês estou a serviço da Ordem Maior, do seu Criador

– E isso lhe traz felicidade, meu irmão?

– Em primeiro lugar não me considero seu irmão, estamos em caminhos opostos.

– Não importa amigo, eu o considero assim, somos filhos do mesmo Criador, não há como alterar isso, portanto…

– Não me preocupo com minha felicidade, mas com compromissos e deveres.

-Isso é com relação a todas as criaturas, indistintamente?

-Sim!

– Desculpe-me, não tocarei mais nisso.

O salão estava repleto de famílias, de crianças e de trabalhadores que se punham a cantar em conjunto com todos. Havia, naquelas pessoas um clima de satisfação.

Sem nada me dizer me fez aproximar de um casal de jovens, dois irmãos, a seguir de uma das crianças presentes, mas não soube porque senti, a contragosto, certa simpatia.

Ela ponderou ao me dizer:

– Essas, como tantas outras, são almas que muito erraram, porém, agora, por vontade própria estão em fase de redenção no Bem.

  A seguir nos conduziu a uma sala no piso superior onde se realizava uma reunião onde vários Espíritos se utilizavam de pessoas para dialogarem, uns com os outros. Alguns choravam por suas agruras, clamavam por justiça e outros mais revoltados.

Um que me pareceu instrutor ou responsável se aproximou e perguntou aos meus acompanhantes se não gostaríamos de experimentar o processo. Eles riram de deboche a acharem que estariam a dominar a situação.

Os dialogadores com os comunicantes me espantaram, tal era a segurança e o teor das argumentações e a posição acolhedora e sincera e, ao mesmo tempo amorosa sem pieguismo religioso.

Dois deles, muito abalados, permaneceram profundamente sensibilizados à emoção e os outros dois se retiraram apressadamente.

Em silêncio voltamos ao salão, aproximamo-nos daquela família e o velho tarefeiro me sugeriu sondar aquelas almas dizendo que eu sabia como fazer.

Sentei-me ao lado e de imediato revi como a apreciar um filme, um distante passado ligado àquele casal, toda a nossa história.

Revi meus filhos do passado, deles afastados há séculos, por impositivos de minhas atitudes, ali acolhidos com amor e carinho.

Uma saudade imensa me invadiu todo o ser. Abracei-os com lágrimas e emoção e percebi que, sem saber se emocionaram também, achando que era a beleza do cântico que era entoado naquele momento.

Rendi-me vencido. No auge de minha emoção percebi suave claridade a invadir todo o ambiente e me pareceu sentir leve perfume. Do meu coração saiu escura nuvem que se diluiu no espaço.

Pelo corredor, entre as cadeiras, um Espírito simpático que aparentava certa idade, embora de fino vigor, de barba plena esbranquiçada e ligeiramente calvo, bem vestido, envolto por suave claridade acercou-se, envolveu-me num abraço bom e disse-me:

– Meu filho, aguardei-o, com esperança, por tanto tempo. Fica conosco!

E… fiquei.

Meu nome? Um Zé ou um João, que importa? Sou apenas, irmão, nesse abençoado pouso para as centenas de aves de arribação que, durante trinta e nove anos pousaram, com gratidão se redimiram, como eu.